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Células-tronco podem ajudar a regeneração do nervo facial

08 outubro 2013

“A expressão dos sentimentos pela face é uma das habilidades mais singulares do ser humano, o que torna a perda dos movimentos dessa musculatura bastante angustiante”. Com essas palavras, a médica Raquel Salomone sintetizou a motivação do estudo da regeneração do nervo facial por meio de células-tronco, com o qual obteve, no fim de 2012, seu título de doutora.

cryoEnviado ao Congresso Mundial de Otorrinolaringologia, em Seul, na Coréia do Sul, o trabalho recebeu, em julho último, o prêmio Jovem Cientista, conferido pelo evento.

O estudo “Avaliação da regeneração do nervo facial de ratos após a implantação de células-tronco derivadas do estroma de medula óssea diferenciadas in vitro” foi orientado por Ricardo Ferreira Bento, professor titular do Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), e contou com apoio da FAPESP.

A proposta foi buscar uma solução para a lesão do sétimo nervo do crânio, causada por traumas ou vírus, que têm como consequência a paralisia e a decorrente assimetria da face.

“Isso traz gravíssimos transtornos para a pessoa afetada, como a incapacidade de piscar o olho, o que pode ocasionar úlcera de córnea e cegueira; a impossibilidade de controlar as glândulas salivares e comer; a perda de sensibilidade do pavilhão auricular e do ouvido externo; além da deformidade estética, com todo o seu impacto psicológico”, disse Salomone à Agência FAPESP.

A reconstrução cirúrgica do nervo tem resultados limitados. Paralisia residual, hipotonia (diminuição do tônus muscular) e sincinesia (associação de movimentos involuntários aos movimentos voluntários) são algumas das sequelas.

“O que mais me instigou, e sinceramente ainda me tira o sono, foi constatar que, mesmo nas mãos dos melhores cirurgiões, os resultados eram tão insatisfatórios. Por que uns pacientes evoluíam bem e outros não? Por que os tratamentos existentes surtiam efeito para uns e não para outros? Eu queria poder fazer algo para ajudar. Foi isso que impulsionou meu estudo”, disse Salomone, que é supervisora do ambulatório de Paralisia Facial Periférica e médica otorrinolaringologista do Hospital das Clínicas da FM-USP.

Sabe-se de longa data que os axônios, que constituem os nervos, são revestidos por uma espécie de capa, formada pelas chamadas células de Schwann. São essas células que fornecem ao nervo todo o suporte de que ele necessita, como os fatores de crescimento, entre outros. A regeneração do nervo depende, portanto, criticamente dessa estrutura celular. O problema é que as células de Schwann são escassas no organismo. Para cobrir com elas um nervo lesionado, seria necessário descobrir outro.

“Pensamos em utilizar células-tronco para suprir essa lacuna. Como se sabe, as células-tronco podem virar qualquer tipo de célula, quando devidamente estimuladas. Então, nossa pesquisa foi investigar como as células-tronco, fazendo o papel de células de Schwann, poderiam favorecer a regeneração do nervo lesionado”, disse Salomone.

O estudo foi feito em modelos animais (ratos), submetidos a neurotmese. Esse procedimento consiste em cortar um pedaço do nervo e deixar um espaço intervalar entre as duas partes remanescentes. Trata-se do pior tipo de lesão que pode ocorrer, muito mais grave do que os casos clínicos predominantes. A ideia foi que se as células-tronco fossem eficazes nesse caso extremo, com mais motivo o seriam nas lesões usuais.

Os animais foram divididos em quatro lotes. No primeiro, as duas partes remanescentes do nervo seccionado foram ligadas por um tubo de silicone vazio; no segundo, o tubo foi preenchido com um gel acelular; no terceiro, com células-tronco não diferenciadas; e no quarto, finalmente, com células-tronco já diferenciadas em células de Schwann.

“Constatamos que todos os animais nos quais foram implantadas células-tronco (indiferenciadas ou já diferenciadas) tiveram melhora muito mais expressiva do que aqueles que receberam o tubo vazio ou o tubo preenchido apenas com gel. Confirmou-se, então, a nossa hipótese de que as células-tronco podem realmente contribuir para a regeneração do nervo”, disse Salomone.

Mas o experimento trouxe uma surpresa: as células-tronco indiferenciadas tiveram melhor desempenho do que as já diferenciadas. “A conclusão a que chegamos foi que isso se devia à presença do tubo de silicone. Por serem capazes de desempenhar múltiplas funções, as células de Schwann precisam de um maior substrato para sobreviver – o que foi dificultado pelo tubo. Já as indiferenciadas mostraram-se mais capazes de sobreviver e atuar em condições adversas”, disse Salomone.

O artigo resultante da tese foi publicado na revista Muscle & Nerve. A referência completa e o abstract podem ser acessados aqui.

 

Fonte: Exame, 2013

Imagem:  Yeko Photo Studio/shutterstock

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