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Células-tronco e diabetes

22 abril 2013

Apesar de não ser considerado a cura para o diabetes, um estudo realizado pela Unidade de Terapia Celular do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), vem obtendo resultados animadores no tratamento de pessoas 20120109_sbd_cpupo_0310eduardocouri_webcom a doença crônica. Das 25 pessoas que participaram do estudo com células-tronco, 21 deixaram de usar insulina em algum momento, sendo que 3 mantiveram a liberdade continuamente e 18 transitoriamente.

Em entrevista ao site da SBEM, o Dr. Carlos Eduardo Couri, que coordena as pesquisas, fala sobre os procedimentos utilizados, o perfil dos voluntários e a repercussão internacional obtida com o sucesso da pesquisa.

Na década de 1990, um dos maiores cientistas do Brasil, o imunologista Júlio Voltarelli (falecido em março de 2012), criou a unidade de terapia celular do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP). Esse centro é específico para o tratamento de doenças autoimunes, como esclerose múltipla, esclerose sistêmica e lúpus. Em 2003, o Dr. Voltarelli me convidou para integrar um novo grupo de pesquisas e analisar se tínhamos condições de realizar o transplante de células-tronco em pacientes com diabetes tipo 1 recém-diagnosticado. Iniciamos, então, uma técnica pioneira no mundo, que hoje é exportada para diversos países.

Site da SBEM – Quais são os métodos utilizados?
Dr. Carlos Eduardo Couri  – Inicialmente é feita uma coleta de células-tronco hematopoéticas através de veia periférica e, em seguida, elas são congeladas. As células-tronco hematopoéticas são células-tronco multipotentes que têm a capacidade de se diferenciar em elementos figurados do sangue e no sistema imunológico. Estas células-tronco encontram-se normalmente na medula óssea dos ossos e é considerada uma célula-tronco adulta.

Duas semanas após a coleta, faz-se a imunossupressão intensa com o intuito de destruir completamente o sistema imunológico “defeituoso” da pessoa com diabetes.
É como se fosse um desligamento do sistema imunológico, com quimioterapia, em ambiente hospitalar. Após o desligamento do sistema imunológico, ele é “religado” com o uso das células-tronco hematopoéticas do próprio paciente.

Ocorre o que chamamos de “reset imunológico”, fazendo com que o sistema imunológico pare de agredir as células-beta pancreáticas. Assim, o restante das células-beta, que ainda não foram destruídas tendem a produzir insulina de forma adequada novamente.  É importante frisar que as pessoas não estão curadas, mas sim controladas e livres da insulina. Elas passaram por uma reeducação alimentar e atualmente monitoram a glicemia diariamente e praticam atividades físicasconstantemente.

Site da SBEM – Até o momento, quais foram os resultados obtidos?
Dr. Carlos Eduardo Couri – Este método apresentou ótimos resultados: das 25 pessoas que participaram do processo, 21 deixaram de usar insulina em algum momento, sendo que três mantiveram a liberdade continuamente e 18 transitoriamente. A grande maioria dos pacientes que voltaram a usar insulina o fez com apenas pequenas doses do hormônio em apenas uma injeção ao dia. Outro ponto importante é que avaliações laboratoriais mostram que o pâncreas dos pacientes passou a trabalhar mais e melhor vários anos após o transplante.

Devido ao fato, porém, de vários pacientes retornarem ao uso de insulina (mesmo em baixas doses), em 2011 fizemos uma pequena mudança no protocolo de pesquisa, intensificando um pouco mais o esquema de imunossupressão sem mudar as demais fases do projeto. Três pacientes já foram incluídos e mostraremos os resultados em breve.

Vale à pena destacar que a equipe de transplante é composta de inúmeros profissionais como médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistente social, etc. São mais de 50 pessoas envolvidas numa equipe que praticamente é uma família.

Site da SBEM  – Qual deve ser o perfil do voluntário?
Dr. Carlos Eduardo Couri – Apesar dos excelentes resultados de nossos estudos até o momento, trata-se de uma pesquisa que envolve riscos do uso da quimioterapia. Além disso, não sabemos ao certo o resultado do uso de células-tronco em longo prazo. Por estes motivos é que temos que ter critérios rígidos de inclusão de pacientes voluntários em nossas pesquisas. Atualmente, os critérios iniciais básicos são idade acima de 18 anos e diabetes tipo 1 há menos de 5 meses.

O motivo de incluirmos apenas pacientes recém-diagnosticados é que estes pacientes, via de regra, apresentam ainda uma parte funcionante do pâncreas e isto é determinante para o sucesso terapêutico da pesquisa. Diariamente recebemos inúmeros e-mails de pais, amigos e parentes de portadores de diabetes solicitando inclusão, mas realmente não podemos abrir exceções.

É bom destacar também que muitos pacientes possuem os critérios de inclusão e optam por não participar de nossos estudos devido aos potenciais riscos da quimioterapia. A quimioterapia promove queda de cabelos, vômitos e pode induzir infertilidade. Além disso, após este “reset imunológico”, o sistema imunológico recém-regenerado ainda não é maduro e isto pode predispor a um maior risco de infecções.

Site da SBEM  – Como se voluntariar ou indicar pessoas para voluntariado?
Dr. Carlos Eduardo Couri – Caso o paciente tenha os critérios inicias básicos, basta entrar em contato diretamente comigo no e-mail ce.couri@yahoo.com.br.

Site da SBEM  – Qual tem sido a repercussão do estudo no mundo?
Dr. Carlos Eduardo Couri – Pelo pioneirismo e originalidade da pesquisa, conseguimos duas publicações como artigo original no concorrido periódico JAMA (Jornal of the American Medical Association), uma das revistas de maior fator de impacto na área médica. Além disso, tivemos diversas outras publicações nacionais e internacionais. Pelo pioneirismo, o número de citações de nosso trabalho é crescente e vários centros do mundo estão conduzindo pesquisas baseadas nos nossos estudos.

Já em 2005 tivemos a honra de ganhar o Prêmio de melhor trabalho do Brasil, concedido durante o Congresso da Sociedade Brasileira de Diabetes em Salvador e, em 2008, recebemos o Prêmio de Melhor Pesquisa Nacional em Prevenção de Doenças concedido pela Revista Saúde da Editora Abril.

Com relação à repercussão no público leigo, nossos resultados foram mostrados em Jornais internacionais como New York TimesLe Monde e Financial Times e no canal CNN. Ainda no cenário internacional, nossos estudos foram alvo de programa noDiscovery Channel Internacional e no canal Japonês NHK.

No Brasil, vários canais de TV e vários jornais têm noticiado nossos achados científicos.

Em 2011, conseguimos um feito pouco comum entre pesquisas nacionais, que foi a aprovação de nosso protocolo pela agência americana FDA (Food and Drug Administration) que regula remédios e alimentos. Além disso, nossos estudos foram aprovados na Europa. Com isto, nós atualmente coordenamos um estudo multicêntrico internacional envolvendo Estados Unidos, França e possivelmente em breve Reino Unido.

Foram ainda realizados estudos independentes replicando nossas pesquisas em países como Polônia e China com resultados semelhantes aos nossos.

Site da SBEM  – A utilização de células-tronco pode ser considerada um caminho para a cura do DM1?
Dr. Carlos Eduardo Couri  – Na minha opinião, o termo “cura” é um termo muito forte quando falamos de uma doença crônica como o diabetes. Mesmo nossos pacientes que estão completamente livres de insulina devem continuar tomando dois remédios: alimentação saudável e atividade física regular. Além disso, obviamente todos os pacientes mantêm monitorização diária de glicemias.

Acredito que nossas pesquisas com células-tronco ajudaram a trazer mais qualidade de vida aos portadores submetidos à pesquisa. Em paralelo, existem outras pesquisas extraordinárias em andamento como a do pâncreas artificial, insulina oral, insulina inalada, monitores de glicose sem necessidade de perfurar os dedos,Smart Insulin (insulina inteligente) que, em conjunto, nos mostram uma perspectiva excelente para os próximos anos.

Todos os novos tratamentos e pesquisas sérias em andamento estão sempre atrelados aos hábitos de vida saudáveis dos pacientes. O que digo sempre aos pacientes que atendo no meu consultório: “Duvide de qualquer tratamento mágico, rápido e não esteja associado a atividade física regular e alimentação saudável”.

Se não temos a cura no momento, posso dizer que a medicina mundial está a caminho de encontrar e a ciência brasileira está colaborando muito para isto.

 

Fonte: endocrino.org

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